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Viver com a diferença

  • Foto do escritor: Story of my life Blog
    Story of my life Blog
  • 7 de jul. de 2021
  • 3 min de leitura

No Lar da Santa Cruz vivemos com algumas meninas que têm défice cognitivo ou deficiência mental (ligeira), umas com uma percentagem maior que outras, com vários níveis diferentes de desempenho, mas todas capazes de fazer o seu dia-a-dia e de expressar a sua opinião (mesmo que algumas não saibam falar muito bem).

Ter um passado sofrido, viver numa instituição e ainda possuir um défice de competências pode ser encarado ou como uma proteção ou um agravamento da situação. Ou seja, há casos em que a ignorância é protetora pois não permite que a vítima tenha plena consciência do que lhe aconteceu e por isso sofra menos. Mas há outros em que a vítima sofre bastante com o que aconteceu mas não possui capacidades para compreender e/ou organizar as emoções e nem planear o futuro.


Na minha casa, tratamos (e são tratadas) todas como iguais, nunca fizemos distinção das meninas com défice e das meninas que não o têm. A não ser em situações óbvias em que algumas precisam de ajuda e outras não. Contudo fora de casa não é assim, muitas destas meninas sofre na escola ou em ambientes de grupo, porque são gozadas pelos alunos que não frequentam o ensino especial e isto perturba-as bastante. Elas reconhecem (na maioria) que têm um problema, mesmo que não o saibam explicar e, portanto, quando se sentem postas de parte ou alvo de chacota ficam com a sua auto-imagem muito frágil.


Quase todas estas nossas meninas dizem que querem ser “iguais às outras” mas nem elas estão aptas para isso, nem a sociedade em que vivemos (dentro e fora da escola). Sei que esta questão é muito maior e ultrapassa o acolhimento institucional. A forma como lidamos com a diferença em geral ainda está muito longe do ideal. De todo o modo, acredito que quem vive neste contexto e partilha casa com jovens com necessidades educativas especiais, fica um bocadinho mais desperto para a tolerância e a entreajuda.


Existem lares só com adultos com múltiplas deficiências, e talvez seja para lá que algumas destas jovens irão parar, mas enquanto são crianças (no caso de estarem em perigo) são acolhidas em lares como o meu e isso oferece uma diversidade de estímulos e convivências a todas (com e sem deficiência).


A adaptação de uma jovem com deficiência a uma nova realidade fora da família pode ser muito desafiante, pela minha experiência verifico que demoram mais a aceitar a mudança de rotinas mas a longo-prazo são as mais felizes no lar porque não percebem o que o futuro lhes pode (ou não) reservar, vivem só no presente.


O maior desafio é mesmo perceber até onde vai a incapacidade intelectual e onde começa a personalidade. Ou seja, quando fazem algo de errado, se o fizeram porque não conseguiram fazer melhor ou se o fizeram sabendo que não deviam. Pois na maioria das nossas meninas a deficiência não é visível nem óbvia, só depois de algum tempo de conversa é que se consegue perceber a dificuldade de raciocínio.


Já vi meninas a chegar com 10 anos sem conhecerem as letras do alfabeto que agora sabem ler e escrever. Meninas que não davam opinião, e que agora não só a dão como reclamam os seus direitos. Conheci meninas que mal sabiam falar e que agora fazem teatros na escola e até cantam. Conheço jovens que trabalham e ganharam um pouco de autonomia embora incompleta. Já assisti a verdadeiros milagres!




 
 
 

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