Passa o testemunho (nº3)
- Story of my life Blog
- 21 de jul. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de jul. de 2021
Família de Afeto, Família de Acolhimento, ou Família de coração…são apenas nomes, designações de algo que para nós significam apenas uma coisa - FAMÍLIA.
Não são só os laços de consanguinidade que definem uma Família. Todos aqueles que escolhemos para fazer parte da nossa “bolha” mais próxima e de uma forma especial são também a nossa Família, seja qual fôr o nome que lhe dermos.
A Inês chegou à nossa Família de uma forma meio inesperada, e, sem pensarmos muito, foi entrando devagarinho e conquistou o seu lugar nos nossos corações e também no de todos os que fazem parte da nossa vida.
No nosso caso foi relativamente fácil este encaixe no nosso puzzle do dia-a-dia, na nossa vida do quotidiano, mas temos consciência de que nem sempre as coisas correm bem e que a adaptação pode ser difícil, ou até nunca se ultrapassarem as inúmeras barreiras que podem ir surgindo ao longo do caminho…
Há que considerar que a Inês tinha já 18 anos quando veio cá a casa pela primeira vez, e nestas idades normalmente já ninguém quer “adotar” ou “apadrinhar” um jovem adulto, até porque sendo já maiores de idade a adoção nos moldes mais oficiais e tradicionais já não é sequer possível. A essa visita inicial seguiram-se muitas outras e, conscientemente, decidimos então que o queríamos fazer na mesma, e que, tivesse ela a idade que tivesse, podendo nós fazer a diferença na vida dela, ela indubitavelmente merecia ter alguém que a acompanhasse fora da Instituição, e que lhe desse oportunidade de saber o que é ter uma Família!
Há no entanto que considerar que, por melhores que sejam as intenções e as vontades, esta história de amor tem também um lado mais complexo e mais desafiante que tem também que ser considerado. Com tantas emoções à mistura, e tantas zonas “cinzentas” pelo meio, é importante assegurar que nada seja feito de ânimo leve e de forma ligeira.
Afinal de contas, a Inês é já uma jovem adulta e nós um casal (ainda jovem também 😄) e sem filhos pelo que a partir do momento em a Inês se foi oficializando como presença permanente na nossa vida, na nossa casa e na nossa família, claro que fomos também assomados por dúvidas e questões, das mais práticas às mais existenciais…
* “A Inês não é uma criança com a qual possamos crescer em conjunto … Estamos certos de compatibilidade com quem somos, os nossos objectivos e os nossos desafios?”
* “E se amanhã tivermos um filho biológico? Temos condições para mais um membro da família? Em que quarto? De que forma?”
* “Vida familiar não é isenta de desencontros de opiniões… E se nos chatearmos? Como é suposto que encontremos compromissos de opinião e acção quando na prática nao há nenhum vínculo de forma oficial?”
* “E se amanhã a Inês, enquanto adulta, tomar decisões com as quais possamos não estar de acordo? Qual o nosso papel? Que tipo de responsabilidade é que temos e que legitimidade temos nós para adereçar algum problema?”
* “Como é que podemos descomplicar dinâmicas familiares do dia-a-dia de forma a que a Inês não se sinta como uma visita cá em casa e nós possamos também viver o dia-a-dia sem constrangimentos?”
* “Como é que vamos nomear esta adição à família, quando tivermos que apresentar a Inês a alguém? E.g. Esta é a Inês e é a nossa o que? Afilhada? Amiga? (?!?)”
* “A Inês começará a trabalhar um dia. Devemos incluí-la na gestão das despesas do dia-a-dia? Gerir finanças nunca é fácil…”
* “A Inês em breve quererá trilhar o seu caminho e viver sozinha. Certamente que não faltará muito para que isto aconteça, e, como ficaremos nós, depois de nos termos afeiçoado profundamente a ela e à sua presença na nossa vida?”
Muitas outras perguntas poderiam ser adicionadas acima e há muitas para as quais ainda não temos sequer uma resposta pronta, mas, a partir do momento em que percebemos que este é um caminho que se vai construindo e mesmo que tivéssemos um filho biológico nada nos garantiria um futuro “questions free”, a certeza de que estamos a fazer o que é certo e melhor para TODOS, deu-nos toda uma nova visão sobre o futuro!
Claro que nem toda a gente que gostaria de adotar ou apadrinhar tem condições para tal, mas felizmente nós tínhamos e só o fizemos exatamente com essa consciência de que para além do Amor, que é sem dúvida das coisas mais importantes, também poderíamos dar-lhe boas condições, conforto e estabilidade emocional.
Já lá vão 5 anos de muitas partilhas umas muito felizes, outras nem tanto; muito poder de encaixe tanto da Inês como nosso (só poderia resultar se assim fosse); mas principalmente de muito respeito mútuo.
Temos sempre uma sensação maravilhosa, e também uma responsabilidade acrescida, de que seremos um “modelo” que, bem ou mal, influenciará para sempre a vida da Inês.

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