Não é só nos filmes nº4
- Story of my life Blog
- 27 de jun. de 2021
- 2 min de leitura
Tal como já referi várias vezes, irei dar voz a quem quiser ser ouvido no âmbito das vivências da institucionalização de crianças e jovens. Alguns preferiram dar em vídeo, outros de forma escrita e anónima. Portanto, e em respeito disso nunca irei identificar a pessoa (se é rapaz ou rapariga, se a conheço há muito ou pouco tempo, se é adolescente ou adulto/a, etc).
Deixo-vos com mais uma história de vida repleta de injustiças e sofrimento, como são todas as que nos levam ao acolhimento institucional…
«Vivi toda a minha infância com os meus familiares num sítio sem condições de habitabilidade e salubridade. Eles eram desempregados e idosos.
Tomava banho na escola e vestia-me com roupas que as professoras e auxiliares me davam. Eu tinha cerca de 9 anos quando os alarmes soaram na escola por causa do que lhes contei...
O nosso vizinho, um homem com cerca de 60 anos cedia a eletricidade através de uma “puxada” até à nosso casebre, dava-nos comida e outros bens.
Em troca, os meus familiares mandavam-me a casa dele fazer-lhe favores sexuais como forma de pagamento. Abusou sexualmente de mim de forma continuada, dava-me revistas pornográficas e doces. Na minha cabeça ia uma enorme confusão de papéis e comecei a achar que ele era meu namorado (disso ele me convenceu), tinha nojo do que me fazia mas gostava da atenção.
Só quando fui para uma instituição de acolhimento percebi que nome se dava ao que me estava a acontecer e a gravidade que tinha. Repeti a minha história às técnicas, à polícia e aos tribunais. E só depois pude ser criança.
Mas uma criança danificada, com brincadeiras muito sexualizadas. Demorei uma eternidade para conseguir arrumar a minha cabeça e ainda hoje tenho traços de personalidade que são consequência do que me aconteceu.
A escola, a instituição e os serviços de proteção social salvaram-me de uma vida miserável. Para onde quer que eu vá, a minha família será sempre a instituição onde cresci.
Por favor nunca hesitem perante uma desconfiança de abuso sexual, de um aluno, de um amigo ou de um filho. Ouçam-nos, estejam atentos aos sinais!»

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