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Mia

  • 8 de abr.
  • 2 min de leitura

Há casas que não são casas.

São lugares de passagem, de espera, de perguntas sem resposta.


E depois há seres que, no meio disso tudo, ficam.


A Mia era uma dessas coisas que ficam.


Não sei exatamente quando apareceu.

Na verdade, sinto que ela sempre lá esteve como as portas grandes, como o barulho das vozes ao jantar, como aquele silêncio estranho das noites em que ninguém dizia o que sentia.


A Mia não precisava de palavras.

Talvez por isso percebesse tudo.


Era a cadela do lar da Santa Cruz, mas, na verdade, era de todos nós.

Ou melhor nós é que éramos um bocadinho dela.


Havia dias em que o mundo parecia demasiado pesado para quem ainda estava a aprender a ser pessoa.

Dias em que a saudade não tinha nome.

Dias em que a raiva vinha sem aviso.


E nesses dias… a Mia estava lá.


Sem perguntas.

Sem julgamentos.

Sem “vai ficar tudo bem”, que às vezes irrita mais do que ajuda.


Só presença.


Encostava-se.

Ficava.

Respirava ao nosso lado como se dissesse: “eu aguento isto contigo.”


E, de alguma forma, isso chegava.


Hoje percebo aquilo que na altura não sabia explicar:

há amores que são âncoras.


Não nos prendem , seguram-nos.


A Mia foi isso.

Uma âncora num mar que, muitas vezes, parecia demasiado agitado para quem ainda nem sabia nadar.


Ontem, a Mia morreu.


E é estranho como a morte de um animal consegue abrir memórias que estavam guardadas há anos.

Como se, com ela, também fosse embora uma parte daquele lugar… e de quem nós éramos lá dentro.


A Mia conheceu versões minhas que já não existem.

Versões mais pequenas, mais perdidas, mais silenciosas.


E ficou.


Ficou quando pessoas iam.

Ficou quando histórias acabavam.

Ficou quando nós próprios já não sabíamos muito bem quem éramos.


Talvez por isso doa tanto.


Porque não era “só” uma cadela.


Era colo num lugar onde, muitas vezes, o colo faltava.

Era constância num mundo feito de mudanças.

Era casa… dentro de uma casa que nem sempre se sentia como tal.


Hoje, o lar da Santa Cruz é um bocadinho mais vazio.


Mas gosto de acreditar que há coisas que não desaparecem.

Que ficam em nós, nos gestos, na forma como cuidamos, na maneira como aprendemos a estar para os outros.


Se hoje sei estar ao lado de alguém em silêncio,

se sei que, às vezes, basta ficar…


foi a Mia que me ensinou.


E talvez seja isso que as âncoras fazem:

mesmo depois de partirem, continuam a segurar-nos.

 
 
 

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